Em Janeiro terminei um namoro, em Fevereiro voltei a apaixonar-me, em Março envolvi-me com essa paixão, em Abril era "a outra", em Maio deixei de o ser, em Junho já estava a viver com ele, em Julho começaram as dúvidas, em Agosto viajámos, em Setembro fui deixada... em Outubro voltámos a falar-nos, em Novembro continuava a viver sozinha, em Dezembro assim permaneci - este é o resumo da minha vida no ano de 2005! Passei o Natal e a passagem de ano com a minha cadela, que fui buscar a casa dos meus pais. Ele? Viajou. Mas não comigo... E esta relação continuou instável durante mais meio ano: ora sozinha, ora acompanhada... por uns minutos ou umas horas, depois por um dia ou dois!
"Devorava" livros para passar o tempo, chorava, gritava, não entendia porque isso me estava a acontecer. O que quer que fosse que tinha que aceitar, não aceitei! Quando fui abandonada, tomei uma embalagem de calmantes. No hospital tentaram fazer lavagem ao estômago mas já tinha absorvido tudo! Diagnóstico: tentativa de suicídio!
Não foi! Sabia que aquilo não me iria matar! Também não queria chamar a atenção de ninguém! Simplesmente não queria viver nos dias que se seguiram... queria dormir e acordar quando aquele sentimento de frustração, vazio, angústia, desilusão... quando tudo tivesse passado! E assim foi.
Andei uns dias sem saber o que fazia. Esses dias ficaram em branco na minha memória - tal como pretendia... Mas tudo o que antecedeu esse momento ficou:
Passados três meses de ele ter abandonado a rapariga com quem vivia há 4 anos e namorava há 10 para ficar comigo, tomou a decisão que me ia deixar para ir viver para casa dos pais, porque precisava de estar sozinho para reaver o que era dele - era o que ele dizia - depois de muitas mensagens, de eventos em que compareciam como se ainda fossem um casal, de desculpas que ela arranjava para se reaproximar, etc. Eu continuava incógnita! Ninguém no mundo dele sabia da minha existência. O meu ego não consentiu isso!
Um dia, ao final da tarde, eu saí, como era habitual, para ir ao curso pós-laboral que frequentava na altura, só que segui mais 50Km, em direcção à casa da "dita-cuja", com o intuito de lhe contar da minha existência. Mas ela não estava em casa. Tentei ligar - ninguém atendeu. Deixei mensagem de voz - apresentei-me como sendo a causa da separação dela e que era comigo que ele estava desde que a tinha deixado. Voltei para casa. Agi como se nada tivesse feito. Sabia que no dia seguinte tudo se iria alterar. A bomba tinha sido deixada - ela iria encarregar-se de fazê-la explodir!
Nessa noite, ela tentou falar com ele. Ele não atendeu, mas de manhã, assim que saiu para o trabalho, ligou-lhe para saber o que se passava. Ligou-me mais tarde a dizer que tinha que ir à cidade dele tratar de um assunto. Disse-lhe que sabia do que se tratava e adverti-o para se preparar para contar a verdade! Os tomates devem-lhe ter caído aos pés! Tentou dar-me um sermão - que o tinha traído, que não tinha o direito de fazer isso, blá, blá, blá...! Quem era ele para usar tal palavra: traição?
Fui egoísta? Talvez, mas não mais que ele. Devia ter ficado quieta? Não me imagino. Era eu que me sentia traída - depois de tantas mentiras, de consentir que ele se encontrasse com ela, de estar constantemente a ouvir que ela tinha que ser poupada de sofrimento porque era comigo que ele estava, de ser tantas vezes deixada à deriva, sozinha... Não tenho estofo para ser "a outra"!
Como habitual, cheguei a casa e voltei a sair para o curso. Quando voltei e abri a porta, fiquei hirta: as poucas coisas que ele tinha em casa, já as tinha levado! Nada que não tivesse à espera... mas, por mais que me preparasse, seria sempre um choque. Verifiquei as gavetas, que nem um autómato - nem uma meia esquecida! Até a nossa fotografia retirou do porta-retratos! Fui ao carro - tinha uma caixa de Sedoxil no porta-luvas - e voltei. Lembro-me que ainda apanhei roupa que tinha estendida na varanda. Vesti a camisa de dormir, tomei todos os comprimidos da caixa e fui deitar-me. Não queria acordar no dia seguinte.
Se fosse fim-de-semana não teria que ter ido trabalhar e ninguém daria pela minha falta... Mas era dia de semana.
No final da tarde, depois do trabalho, ele foi lá a casa, a pedido de uma colega que me tinha tentado ligar todo o dia. Claro que isto já me foi relatado. Levaram-me para o hospital, do qual fui reencaminhada para o psiquiátrico. Queriam-me internar, mas o meu irmão não deixou. Pediu para que o responsável por esta situação passasse essa noite comigo. Ele cedeu. Tenho uma vaga ideia de o ver deitar na cama, bem afastado de mim, sem dizer uma palavra. Depois, o meu irmão passou a dormir todas as noites no meu apartamento, durante 2 meses.
Passados poucos dias voltou para o ataque - não queria nenhuma ligação comigo que o pudesse comprometer! O apartamento estava alugado em meu nome e ele estava como fiador - queria deixar de o ser! Foi mais uma bofetada "em seco"! Disse-lhe que podia confiar, mas em vão, claro. Certamente essa prova ia contra as histórias que inventou para a "dita-cuja". De qualquer maneira, também era uma vingança... sei lá! Isso ficou-me atravessado até hoje! Depois daquela tortura toda, tinha que me picar mais um bocadinho... Mas nem assim, nem depois de toda essa frieza fui capaz de o afastar! Foi assim nos tempos que se seguiram: quando eu arranjava forças para desistir, ele corria atrás, quando ele se afastava, era eu que persistia. Ouvi vezes sem conta que continuava a tratar da separação. Ouvi muitas mentiras...
Os colegas de trabalho, amigos de ambos, que acompanhavam a nossa história de perto, diziam-me para desistir, que ele não merecia nada do que eu estava a passar. Tentei. Tentei interessar-me por outros rapazes (acto que ele até incentivou!), reencontrei-me com o meu primeiro amor... Mas eu era um vegetal - só vivia em função desse sentimento! Perdi parte da minha auto-estima com este amor.
Em 2006, já começou a ficar mais tempo comigo - 2 dias por semana! O Carnaval, a Páscoa e outros fins-de-semana prolongados passou-os comigo, viajámos para vários cantos do país. Mas continuava sem me assumir.
Somente depois das férias prolongadas de Agosto voltou a viver permanentemente comigo. Assumiu-me perante os pais e pouco mais. Continuava sem coragem para me assumir perante os amigos, até porque muitos ainda nem sabiam que ele se tinha separado!
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