Quando crianças, não nos analisamos interiormente, porque estamos demasiado distraídos a absorver tudo o que nos rodeia.
Na escola, admirava a capacidade que as minhas colegas tinham de cativar todas as atenções. Tinham um grupo alargado de seguidores, de ambos os sexos, que as acompanhavam para todo o lado. Achava-as bonitas e simpáticas... Aí, eu pensava: "Gostava tanto de ser como elas...!"
O tempo passou. Cresci. Essa admiração desvaneceu-se à medida que me fui apercebendo que essas colegas que tanto admirava, eram vazias por dentro, tal como os ovos em que se faz um furinho para ficar apenas com a casca para ornamentar. Hoje, cruzo-me com elas, e não as vejo mais bonitas que eu!
Não sou muito sociável... Tenho um número reduzido de conhecidos e ainda mais restrito de amigos. As pessoas olham de lado para mim porque falo muito pouco ou nada. Algumas, quando finalmente me conhecem como amigas, acabam por confessar que tinham uma má impressão de mim.
Hoje, não mais criança, consigo olhar para trás e observar essas colegas tão "sociáveis" - elas não cresceram interiormente - são pessoas vazias! E, tal como acontecia com elas, hoje oiço pessoas que falam imenso para cativar atenções, mas aquilo do que falam não tem o mínimo de interesse, assuntos fúteis, que "entram por um ouvido e saem por outro"!
Hoje apenas admiro pessoas pela sua beleza interior, pessoas que partilham a sua simplicidade, que respeitam a unicidade... Afasto-me de pessoas egoístas ou egocentristas, oportunistas ou exebicionistas... Não me tenho que preocupar em procurar amigos - eles vão cruzando naturalmente o meu caminho - pessoas com quem falo espontaneamente, com quem partilho alegrias e tristezas... Por vezes, só por um dia! Porque o meu coração sabe diferenciar um amigo de uma "carroça vazia".
"Certa manhã, bem cedo, quando ainda era pequeno, o meu pai, velho sábio, convidou-me para ir ao bosque a fim de ouvir o cantar dos pássaros. Acedi com grande alegria e lá fomos nós, humedecendo os nossos sapatos com o orvalho da relva.Parou numa clareira e, depois de um pequeno silêncio, perguntou-me:- Estás a ouvir alguma coisa, para além do canto dos pássaros?Apurei o ouvido alguns segundos e respondi:- Estou a ouvir o barulho de uma carroça que deve estar a descer pela estrada.- Isso mesmo... - disse ele - É uma carroça vazia. Sabes porquê?- Não...! - respondi intrigado.Então, o meu pai pôs-me a mão no ombro, olhou bem no fundo dos meus olhos e disse:- Por causa do barulho que faz. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz.Não disse mais nada. Porém, deu-me muito que pensar.Tornei-me adulto. E, ainda hoje, quando vejo uma pessoa tagarela e inoportuna, interrompendo intempestivamente a conversa, querendo demonstrar que é dono da verdade e da razão ou quando eu próprio, por distracção, vejo-me prestes a fazer o mesmo, imediatamente tenho a impressão de estar a ouvir a voz do meu pai soando na clareira do bosque a dizer-me:- Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz!"