sexta-feira, 19 de março de 2010

Flamingos

O tempo de almoço da empresa, permitia-nos conviver, tanto com os colegas de trabalho mais próximos como com os de "estatuto mais elevado". Íamos até ao café, até à praia... Este ano foi excelente: em pleno mês de Fevereiro podíamos usar um bikini, com um sol radiante, sem aquele vento irritante que costuma fazer nos meses de Verão! Quando tinha prova no curso pós-laboral, aproveitava para estudar. Ia para o carro, abria as janelas e punha uma musiquinha...

Foi num desses dias, em que estava dentro do carro a estudar que ele surgiu: estacionou o carro ao lado do meu e pediu-me para ir com ele - queria mostrar-me uma coisa... Durante o almoço, ele tinha comentado que havia flamingos no rio. Eu, que passava todos os dias por lá, protestei - nunca tinha lá visto flamingos nenhuns!! Até porque os flamingos são aves exóticas...! Disse que não, dei a desculpa que tinha que ficar a estudar. Achava-o muito simpático, mas não tinha à-vontade suficiente para sair sozinha com ele de carro. Mas insistiu e acabei por ceder.

Levou-me até ao rio... e lá estavam os benditos flamingos!

No dia seguinte, a visita aos flamingos era o tema principal de conversa. Havia uma divergência de opinião na cor das penas dos flamingos: eu esperava ver flamingos de rosa intenso, como via na televisão e nos livros, mas pareciam brancos! E foi então que, em pleno discurso argumentativo, me enrolei toda e disse "pernas" em vez de penas! Dá para imaginar o filme? "Afinal não viste só flamingos de penas brancas, também viste outra espécie de flamingo, com pêlos...!"

Voltou a convidar-me para ir ver os flamingos, mas recusei ir sozinha com ele. Resolvido - foi buscar um colega nosso e voltou! Desta vez, levou a máquina fotográfica com ele. Tirou fotos aos flamingos, e não só...
Através desse mesmo colega também conseguiu o meu número de telemóvel. Depois da primeira mensagem, sucederam-se dezenas... Também trocámos e-mails, onde me enviou algumas das fotografias que tinha tirado aos flamingos... e a mim!

Certo é que um homem fiel não devia proporcionar intimidades destas. Algo estava errado. Dizia que se sentia como "queijo sem goiabada"... As conversas tornaram-se cada vez mais íntimas. Havia algo no ar. Tínhamos que parar! Não nos era permitido ir mais além... Mas por quem? Pela moral? Pois... é um motivo forte.

Fevereiro, 2005

O Primeiro e o Último

No início do ano de 2005 ainda morava com os meus pais e tinha um trabalho estável. Namorava há 3 anos e meio. Contudo, não me imaginava casada com uma pessoa como o João o resto da minha vida - era pouco culto e muito calado! Eu falava e discutia sozinha, apenas tinha um aceno afirmativo com a cabeça ou um encolher de ombros. Namorámos muito tempo dentro do carro e, isso só mudou porque cansei de esperar por uma mudança da parte dele - passámos a ir para minha casa. Demorou imenso a levar-me a conhecer a família dele. Começou a namorar comigo porque me achava "engraçada"...

Durante muito tempo deste namoro, ainda pensava no meu primeiro namorado (sério - o da 1ªvez). Apenas 4 anos depois de ele ter terminado a relação comigo e 10 depois de me ter apaixonado é que descobri que esse amor já estava arrumado, com o devido carinho. Fiquei feliz e orgulhosa por perceber que não havia mais mágoas, que tinha guardado apenas os bons momentos que tivemos juntos - momentos mágicos... Foi o meu primeiro amor, aos 13 anos, um amor de verão, encantado, que sobreviveu muitos verões. Tive muitas paixonites entretanto, mas aquele amor permanecia sempre, acima de todas as frustações, angústias e desgostos.
Quando nos reencontrámos seria para continuar, mas ele estava diferente... e eu também. Percebi que o David que eu pensava ainda amar existia apenas nos meus sonhos, nas minhas recordações. Aquele amor já não era real, era uma recordação... muito doce.

A relação que mantinha com o João estava estagnada. Já não sentia desejo por ele e a monotonia tinha-se instalado - era apenas uma companhia. Um dia, sem preparação alguma ou aviso prévio, numa das nossas comuns idas ao café, terminei. Assim mesmo:"Não dá mais!". Claro que foi um choque para ele e fez de tudo para continuar. Dizia "Vamos tentar outra vez!". Mas não há mais nada a fazer quando o amor acaba! Sofri por fazer sofrer. Ele, que nunca tinha declarado que me amava, mesmo quando pedira que o fizesse, agora dizia-o espontaneamente, com as lágrimas nos olhos. A única maneira que encontrei para minimizar o sofrimento de ambos foi o afastamento. A amizade não pôde permanecer porque ele não conseguia estar comigo sem tentar reatar o namoro.

Não contei a ninguém que tinha terminado com o João, à medida que as pessoas se iam apercebendo, ia confirmando. Sou transparente no que sinto - quando algo não está bem, fica espelhado no meu rosto.

Janeiro, 2005