Não podia faltar uma história sobre estrelas cadentes no meu baú...!
Sempre que se aproximava o Verão, o meu coraçãozinho de criança adolescente palpitava num ritmo mais acelerado - tudo por uns diazinhos em que revia o meu primeiro grande amor!
No primeiro ano, descobri que estava apaixonada tarde demais; no segundo, o David tinha-me esquecido e estava "enrabichado" por outra - fui apenas por dois dias à aldeia, mas ainda hoje parece que fiquei por duas semanas a conviver com aquela desilusão! Então nesse ano, já com dezasseis anos, seria aquele que iria pôr termo a todos os desencontros e dúvidas. À terceira é de vez!
O primeiro problema foi resolvido com êxito! A minha prima foi passar uns dias em minha casa, para ir à praia, e pedi aos meus pais para voltar com ela para a aldeia, onde fiquei em casa dos meus tios. Consegui ir para a aldeia na altura que o David lá estaria!
A tal "pedra" que tinha surjido no ano anterior tinha desaparecido e tudo se desenrolou para que finalmente acertássemos no compasso do que sentíamos um pelo outro. E foi lindo...!
Na noite em que demos o primeiro beijo, tínhamos estado no jardim em grupo. Alguém colheu uma rosa - um broto da cor que lhe dá nome - que andou de mão em mão até vir parar às minhas. Entre conversas e passeios, a rosa acabou dentro de uma garrafa de água que o David levou para casa.
Apesar de um dos tios ter casa lá na aldeia - a casa que foi "a minha casa", aquela que eu intitulei de "casa grande" - e que nos dias de hoje me entristece passar à porta e não poder entrar, porque não é mais a "minha casa". Sinto que deixei ali a minha infância, a minha alegria... e não posso entrar para ir buscá-las! Como estava a dizer (e perdi-me na nostalgia), apesar de terem onde ficar, a mãe e a tia do David passaram a alugar outra casa. No primeiro ano, em que conheci o David e a prima (Lúcia), era lá na minha ex-casa que ficaram. Ela levou-me a rever a casa. De facto, aquela não era mais a "casa grande" - não tão grande quanto me parecia com os prováveis dois aninhos com que fui para lá morar. Mas até sair de lá, cinco ou seis anos depois, quando surjiu um filho do dono a dizer que os pais queriam voltar, aquela casa sempre foi grande, porque grande também era a harmonia daqueles tempos! Desde então, nunca mais houve Natal...
Voltando à garrafa de água com o broto de rosa (que ficou esquecida no trecho de história da "casa grande"...), na manhã seguinte, quando fui ter com o David e as primas (nesse ano, a Lúcia estava acompanhada da irmã), o broto tinha aberto e preenchido toda a pequena garrafa de lindas pétalas cor-de-rosa, tal como o desabrochar do nosso amor.
O combinado tinha sido uma semana com os meus tios, por isso, numa Quarta-feira, eles levaram-me à estação para apanhar o comboio de regresso. Nesse dia choveu...
Já em casa dos meus pais, no dia seguinte, toca o telefone - eu atendo - era um tio da minha mãe a informá-la do falecimento da esposa! Não sei bem se é pecado... Não pode! Sentir-me feliz não pode ser pecado! Fiquei radiante! Apesar do evento fúnebre, eu só pensava em voltar à aldeia, onde ainda se encontrava o meu amor!
Claro que ninguém me esperava ver passados dois dias! Da varanda do último andar da casa alugada, a prima mais nova do David foi a primeira a avistar-me. Ela não queria acreditar no que via, por isso, começou a chamar histericamente a minha amiga que morava em frente e se encontrava na rua naquele momento: "Xana! Xana! Xanaaaaa...!" O David e a Lúcia também correram para a varanda, entretanto. A Xana não a ouviu, mas viu-me e desceu a rua em direcção a mim. A dúvida desapareceu - era mesmo eu! Vieram todos! Eles partilhavam da mesma felicidade que eu. E o David estava ali, com aqueles olhos brilhantes que me abraçavam. Ainda que por um dia, essas poucas horas eram como gotas de chuva no deserto, que nos iriam saciar para depois seguirmos os nossos caminhos, até à próxima...
Foi então que ele me contou que, na noite anterior, tinha visto uma estrela cadente e esse tinha sido o seu desejo: que eu voltasse!
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